|
|
|
»Estado
Vegetativo Persistente (EVP)
-O termo “Estado Vegetativo
Persistente” foi inventado em 1972 por Bryan Jennett e Fred Plum para descrever
os doentes que acordaram de um coma longo, abriram os olhos mas nunca mostraram
estar conscientes “acordado mas inconsciente”. Não mostraram nenhuma resposta
significativa às mudanças no seu ambiente excepto a nível reflexo. (5)
Em 1983 a Comissão Presidencial para o estudo de problemas éticos na medicina e
na pesquisa behaviorista, nos Estados Unidos, aceitou esta descrição de síndrome
EVP e definiu inconsciente como a inabilidade para “experimentar o ambiente”.
(6)
Pode-se, portanto, definir “Estado Vegetativo Persistente” como um estado
clínico de completa inconsciência relativamente ao próprio e ao ambiente.
Devido ao diagnóstico, às incertezas prognósticas e terapêuticas a respeito da
síndrome EVP diversas organizações médicas publicaram os seus padrões para o
cuidado médico a doentes nestas circunstâncias, tais como: a Academia Americana
de Neurologia em 1989 (7), a Sociedade de Neurologia Pediátrica em 1991 (8), o
Instituto de Ética Médica do Reino Unido, através do grupo de trabalho sobre a
ética do prolongar da vida e do ajudar a morrer em 1991 (9), do Comité de Ética
Médica da Associação Médica Britânica em 1992 (10) e da Associação Americana de
Neurologia em 1993 (11). Uma “Task Force” de várias Sociedades em EVP publicou
um consenso em 1994. (12) O estado vegetativo persistente é um diagnóstico
neurológico, sendo “uma continuada e completa perda do conhecimento próprio com
ciclos de sono/vigília e outras funções autónomas permanecendo relativamente
intactas. Esta situação pode seguir-se a uma lesão cerebral bilateral grave ou
desenvolver-se gradualmente na fase final de uma demência”. (13)
O quadro clínico
10% dos doentes em coma por mais de 24 horas permanece por algum tempo num
estado vegetativo transitório. A situação de estado vegetativo persistente não
pode ser diagnosticada de imediato; usualmente é necessário um período de
observação de 1 a 3 meses. (14) Fala-se em estado vegetativo permanente ou
crónico, quando este estado é considerado definitivo, irreversível, normalmente
após um ano de cuidados de observação atenta e de estimulação da vigília. (15)
O estado vegetativo persistente fora anteriormente chamado de coma vígil e coma
prolongado, mas de um ponto de vista médico o termo “coma” é incorrecto nesta
situação.
Jennett e Plum escolheram o termo EVP com cuidado. O termo “Vegetative” é usado
para descrever “um corpo orgânico capaz de crescimento e desenvolvimento mas
desprovido de sensações e pensamentos”. As funções vegetativas autonómicas são:
a cardiorespiratória, a gastrointestinal, a urinaria, a termorreguladora e a
neuroendócrina.
A expressão única “estado vegetativo persistente” é contestável na medida em que
corre o risco de introduzir uma confusão entre “persistência” (carácter do que
tem tendência, por si, a manter-se, que marca qualquer estado vegetativo) e
“permanência”. O que é grave, porque esta confusão pode conduzir a uma
interrupção prematura dos cuidados de estimulação da vigília. (15)
Na maior parte dos casos estes doentes são jovens que ficaram em coma severo e
prolongado, por acidente rodoviário com lesões cerebrais (40%), por uma anoxia
severa após uma paragem cardíaca ou afogamento, ou após uma severa hemorragia
subaraquenoideia. Os doentes em coma encontram-se profundamente inconscientes,
não abrem os olhos, nem mostram nenhuma resposta reflexa à estimulação e não
conseguem ser despertados. No decurso do tempo alguns abrem os olhos mas nunca
recuperam a consciência, há uma inconsciência completa do próprio e do ambiente
que o rodeia. Os seus olhos olham fixamente em redor e às vezes os olhos podem
reflexamente fixar-se num visitante. Alguns doentes, por vezes, giram a cabeça e
os olhos para seguir um objecto que se mova ou para um som alto.
Há geralmente movimentos espontâneos dos olhos mas a perseguição visual
sustentada falta na maioria destes doentes. Quando os doentes transitam de um
estado vegetativo para um estado de consciência, um dos sinais mais precocemente
observáveis desta transição é o surgimento da perseguição visual sustentada. Só
em casos esporádicos, é que doentes que não tiveram nenhuma outra evidência de
consciência, após um período de meses ou anos, podem ter algum grau de
perseguição ou de fixação visual momentaneamente sustentada, que se acredita ser
mediada através das estruturas cerebrais.
Estes doentes apresentam um ciclo de sono e de vigília, mas, nunca têm todo um
comportamento intencional ou voluntário. Não há nenhuma evidência da compreensão
ou da expressão de língua. O doente pode ter movimentos não intencionais
espontâneos como ranger os dentes. Às vezes, e sem nenhuma razão aparente, podem
gritar, gemer, bocejar, chorar ou sorrir.
Podem ter reacções de sobressalto a um ruído e podem ser despertados por
estímulos dolorosos, abrindo os olhos ou movendo os membros espásticos. As suas
funções cardiovascular, gastrointestinal e renal são geralmente boas, embora
sejam incontinentes. Na maior parte dos casos estes doentes podem respirar
normalmente e podem ser alimentados, na maior parte dos casos, através de uma
sonda naso-gástrica, ou por um tubo de gastrostomia.
Ao exame neurológico os reflexos do tronco cerebral – pupilares, córneos,
oculoauditivos, oculovestibulares, oculocefálicos, masseterino, faríngeo, da
deglutição, da tosse e do bocejo – estão geralmente intactos. Os sinais
neurológicos a nível dos membros espásticos são variáveis. A estimulação
dolorosa pode provocar uma resposta de extensão ou de flexão. Este quadro
clínico indica uma perda total de funções corticais.
A imagiologia cerebral (tomografia axial computorizada ou ressonância magnética
nuclear) evidencia que os hemisférios cerebrais estão severamente lesados e em
casos de longa duração exibem uma total atrofia. Mas estas alterações não são
específicas. O estudo repetido durante o primeiro mês após o início do coma
documenta geralmente uma atrofia progressiva, o que reduz a probabilidade de
recuperação neurológica. As lesões do corpo caloso e do bolbo raquidiano
dorsolateral parecem ser preditivas de não recuperação.
A tomografia por emissão de positrões (PET) revelou uns 50 a 60 por cento de
diminuição na taxa metabólica de glucose no córtex cerebral, o que está ao nível
da anestesia profunda. Isto combinado com a ausência da actividade evocada na
varredura do PET sustenta a afirmação que o doente em EVP tem uma perda total de
funções corticais.
O electroencefalograma (EEG) de um doente neste estado indica um coma com um
ritmo básico muito lento no córtex cerebral. Ocasionalmente uma parte do EEG é
iso-eléctrica. Não há nenhuma reacção normal após a abertura dos olhos. Após a
estimulação, dolorosa ou por ruído claros (respostas evocadas), não há nenhuma
reacção detectada no EEG. Por vezes há, contudo, alguma actividade focal de
áreas preservadas. (4)
Patologia
São três os principais padrões patológicos encontrados:
a) hematoma difuso, tipicamente como sequela a hematoma severo após traumatismo
fechado agudo. Um hematoma subcortical extenso isola o córtex de outras partes
do cérebro, as agressões hipoxia/isquemia podem também causar uma
leucoencefalopatia difusa.
b) necrose difusa extensa do córtex cerebral. Este aspecto segue-se a isquemia
cerebral aguda, global.
c) necrose talâmica é ocasionalmente encontrada.
O tronco cerebral está geralmente intacto, e responde com a manutenção das
funções vitais. (4)
Dor e sofrimento
Foi formulada, por vários autores, a seguinte pergunta: podem os doentes em EVP
experimentar a dor e sofrer? Constata-se que os doentes reagem frequentemente
com movimentos, reacções de extensão e de flexão, gritos e ranger dos dentes
após a aplicação de estímulos dolorosos e de outros estímulos nocivos. Mas, os
neurologistas estão convencidos que todas estas reacções são reflexas, mediadas
pela medula espinhal e pelo tronco cerebral. Gritar, ranger os dentes e sorrir
após a aplicação de estímulos dolorosos são reacções totalmente reflexas, mas
não são capazes de mastigar ou deglutir voluntariamente, porque estas já são
funções do córtex cerebral. Uma vez que as reacções conscientes necessitam de
uma função intacta do córtex cerebral. Assim, não há evidência de qualquer
resposta cognitiva a qualquer estímulo, bem que estes doentes não tenham
qualquer capacidade de experimentar a dor, a sede e portanto sofrer, devido à
perda total das funções superiores. (4 e 14)
Diagnóstico diferencial
O Estado Vegetativo Persistente deve ser distinguido do coma, do estado do “locked-in”,
do mutismo acinético e do estado de resposta mínima.
Coma é um estado de inconsciência patológica profunda em que os olhos estão
fechados, os ciclos de sono/vigília ausentes e o doente não pode ser despertado.
Geralmente é transitório, mas uma consequência possível é o estado vegetativo.
O “locked-in” ou estado desaferentado é um síndrome em que a consciência e a
cognição estão mantidas mas, devido a lesões do tronco cerebral, o doente
encontra-se totalmente paralizado. Os doentes com este síndrome podem somente
estabelecer uma comunicação limitada através de sinais emitidos pelos movimentos
dos olhos.
O mutismo acinético é um estado de apatia profunda com evidência de consciência
preservada, caracterizada pela perseguição visual sustentada. É um síndrome
raro, caracterizado pela perda dos movimentos corporais patologicamente
retardados e quase total ausência do discurso. Lesões na região do lóbulo
frontal mediano são frequentemente as responsáveis pelo mutismo acinético.
Há desacordo sobre a terminologia mais apropriada para descrever os doentes que
apresentam alguma evidência consistente ou inconsistente da consciência quando
profundamente traumatizados física e psicologicamente. Os termos “estado de
baixa consciência” e “estado de resposta mínima” têm sido os advogados.
Nos casos do síndrome “locked-in”, mutismo acinético e estado de resposta mínima
o doente pode experimentar a dor, a fome e a sede. (4)
Diagnósticos errados
É frequentemente, muito difícil, mesmo para os clínicos experientes,
estabelecer, com certeza absoluta, se um doente está em estado vegetativo ou se
há uma recuperação mínima da consciência. Assim, podemo-nos interrogar se
poderemos diagnosticar com razoável exactidão o Estado Vegetativo Persistente.
Childs e colaboradores estudaram 49 doentes admitidos no seu centro de
reabilitação com o diagnóstico de EVP. Detectaram evidência de consciência em 17
deles após uma semana da admissão, o que sugere que o estado vegetativo fora mal
diagnosticado anteriormente. (16)
Andrews e colaboradores observaram 40 doentes admitidos no Royal Hospital for
Neurodisability de Londres, com o diagnóstico de EVP, todos com mais de seis
meses de evolução. Alguns doentes estavam há mais de cinco anos diagnosticados
como vegetativos. Onze deles ficaram completamente orientados no espaço e no
tempo. Dezassete doentes mostraram após algum treino a habilidade de comunicar
consistentemente usando o olho. Estes dezassete foram considerados como mal
diagnosticados. Sete deles tinham estado presumidos como vegetativos por mais de
um ano. A maioria destes doentes, com diagnósticos errados, eram cegos ou com
graves lesões visuais. Todos eles ficaram severamente debilitados fisicamente
mas quase todos eram de alguma forma capazes de comunicar a sua preferência em
termos de qualidade de vida, e alguns a um nível elevado. (17)
Talvez alguns destes casos possam
ter sido casos de recuperação atrasada em vez de diagnósticos errados, mas
parece que o diagnóstico de Estado Vegetativo Persistente é frequentemente feito
com cuidado insuficiente. Isto traz-nos de novo a pergunta se o doente em EVP
pode sofrer? “Podemos estar absolutamente certos que os doentes em estado
vegetativo não experimentam nada? Pode uma careta em resposta à dor não indicar
reflexos da consciência?” (18) Cerca de 40% de diagnósticos errados deixa a
dúvida se os doente em EVP não podem sofrer. (4)
Cranford (19, 20) é muito céptico quando comenta que o sistema do “buzzer” para
comunicar é falível e sugere fazer-se vídeos destes doentes de modo que outros
clínicos possam ver os resultados.
As explicações para os diagnósticos errados são: observação inadequada em
circunstâncias inapropriadas, falha no ouvir aqueles que cuidam do doente
(especialmente as enfermeiras e os membros da família), e as dificuldades
inerentes em detectar sinais de consciência nos doentes que estão gravemente
lesados em termos visuais e que têm incapacidade major a nível motor.
Estabelecer o diagnóstico de EVP é, em tais circunstâncias, muito difícil e a
maioria dos clínicos têm experiência de poucos casos. Deve ser feita a distinção
entre os movimentos oculares de perseguição que são reflexos e os que são
intencionais, assim como os movimentos de uma mão, da compressão de um dedo ou
do movimento de um pé. Todas estas observações necessitam ser feitas por dois
peritos e por diversas vezes. (4)
Prognóstico
Qual é o prognóstico para os doentes em estado vegetativo persistente?
O resultado clínico é classificado geralmente de acordo com a escala de Glasgow
em cinco categorias:
1) recuperação boa (têm a capacidade para recomeçar actividades ocupacionais e
sociais normais, embora possa haver alguns deficits menores ou sintomas físicos
e/ou mentais),
2) recuperação moderada (independentes, podem recomeçar quase todas as
actividades do dia-a-dia mas não participam por muito tempo em actividades
sociais ou laborais),
3) pouca recuperação (parcial ou totalmente dependentes de outros para executar
as actividades diárias. A maioria destes doentes são acompanhados em centros de
cuidados continuados mas, alguns deles, estão em casa com a sua família.
Limitam-se a habilidades de comunicação e respostas emocionais),
4) estado vegetativo permanente ou crónico,
5) morte.
O prognóstico um mês após a lesão do cérebro foi analisado pela Multi-Society
Task Force americana em EVP, em 1994. Os factores que influenciam as
possibilidades de recuperação são: a idade, a etiologia, e o tempo já decorrido
em estado vegetativo. O resultado é melhor nas crianças, melhor após traumatismo
do que lesão não traumática do cérebro e piora com a passagem do tempo. (12)
A respeito do grupo de doentes traumáticos pode-se dizer que um doente que tenha
mais de quarenta anos e que esteja um mês em estado vegetativo após a lesão, não
tem virtualmente nenhuma possibilidade de recuperar a sua consciência anterior,
no máximo tem uma recuperação com grande debilidade mental. Para os doentes que
tenham menos de quarenta anos há um melhor prognóstico. Na literatura há casos
de recuperação a nível mental aceitável em crianças e em doentes jovens em EVP
de mais de três mas menos de seis meses.
Doentes em Estado Vegetativo Persistente por um acidente anóxico severo tal como
uma paragem cardíaca, afogamento ou hemorragia subaraquenoideia, têm um
prognóstico muito mau. Quando estiverem em EVP por mais de um mês eles não têm
virtualmente nenhuma possibilidade de recuperação para um nível mental
aceitável.
A Task Force concluiu que um estado vegetativo pode ser julgado permanente 12
meses após a lesão traumática, a recuperação após esse tempo é excepcionalmente
rara e envolve sempre incapacidades severas. Nos doentes com lesões não
traumáticas, um estado vegetativo pode ser considerado permanente após três
meses, a recuperação ocorre mas é rara e associada a incapacidades severas. As
associações médicas americana e britânica concordaram com esta conclusão. (4)
A diferença entre estes dois grupos é explicável. Nos casos traumáticos há,
aquando do acidente, uma lesão directa dos intervalos subcorticais. Mais tarde
há a complicação de um lento edema cerebral que destrói gradualmente as células
cerebrais. Assim há, por algum tempo, uma possibilidade para o tratamento e a
recuperação. Nos casos anóxicos severos há subitamente uma anóxia geral do
cérebro complicada com um edema generalizado que obstrui a circulação cerebral.
Deste modo a morte das células nervosas do córtex cerebral é um evento rápido,
que é intratável. (4)
A Task Force concluiu que os doentes que estão mais de 4-6 meses em estado
vegetativo têm um prognóstico muito mau e na possibilidade de recuperarem mental
e fisicamente ficam severamente incapacitados. A recuperação da consciência em
doentes que tenham estado um ano ou mais em EVP depois do trauma era de menos de
2% e todos estes doentes ficavam severamente incapacitados mental e fisicamente.
(12)
Adam Zeman indica que em quase toda a recuperação da consciência ocorrida em
doentes em EVP, a sua condição é aceite por eles, mesmo nos casos de recuperação
muito arrastada. Os doentes que recuperam a consciência dentro de 4 a 6 meses
após a lesão apresentam algum grau de incapacidade cognitiva e verbal mas podem
comer normalmente com ou sem ajuda, podem ser independentes no cuidado pessoal e
podem andar ou mover-se com uma cadeira de rodas. Todos os doentes que recuperam
a consciência após os 6 meses somente conseguem comunicar com a compressão de
uma mão e dependem da alimentação por sonda nasogástrica ou tubo de gastrostomia.
Ficam também totalmente dependentes para o cuidado pessoal e para a mobilidade.
Todos os doentes que recuperam a consciência podem manifestar prazer dentro dos
limites da sua habilidade cognitiva. Um dos seus doentes, que recuperou a
consciência após três anos, embora não respondesse a comandos, ria
apropriadamente ao ver “cartoons” na televisão e em situações humorísticas,
mostrou também prazer quando a sua esposa o visitou e aflição quando ela saiu.
Ficou totalmente dependente para todos os cuidados, mas foi enviado para casa.
(18)

|
|
 |
Sobrevivência
A maioria dos doentes morrem dentro de um período de dois a cinco anos na maior
parte dos casos devido a complicações infecciosas. Após um ano, 33% dos adultos
em EVP traumático tinha morrido e 9% das crianças; após cinco anos, 95% dos
adultos tinha já morrido. Após um EVP não traumático, 53% dos adultos morreu
dentro de um ano, assim como 22% das crianças. Um número muito pequeno de
doentes, menos do que 1%, bem descritos, em EVP sobreviveu por mais de 15 anos.
(4) A mais longa sobrevivência documentada é a de Elaine Esposito, que
sobreviveu 37 anos neste estado. (21) No entanto, apesar desta possibilidade ser
excepcionalmente baixa, estes casos dão forma a um problema moral complexo.
Epidemiologia
Falta-nos informação precisa da prevalência de doente em estado vegetativo
persistente. As estimativas variam de 10.000 a 25.000 adultos e de 4.000 a
10.000 crianças nos EUA. Um estudo sugere como provável uma incidência anual de
600 novos casos no Reino Unido, com uma prevalência aproximada de 1.500 para uma
população britânica de cerca 60 milhões. (9) Os custos com estes doentes são
extremamente elevados, cerca de 150.000 dólares ao ano. (4)
1. Qual é o estado de um
doente em Estado Vegetativo Persistente. É um doente terminal ?
Os doentes em Estado Vegetativo Persistente são geralmente vistos como tendo um
prognóstico muito mau e consequentemente muito pouca esperança de recuperação da
consciência, de modo que a morte é encarada como a melhor solução. Karen Ann
Quinlan, de 20 anos, foi encontrada em 1975, em estado de coma e confiada a uma
unidade de cuidados intensivos. Foram necessárias duas sentenças de tribunais
para que o pai obtivesse, um ano depois, a paragem da assistência respiratória.
Karen Ann ainda viveu nove anos, incapaz de pronunciar uma palavra ou de fazer
um gesto com significado; só necessitava de cuidados simples, mas que exigiam
muito de quem a tratava. (15) A situação de Karen Ann foi julgada como sendo “um
facto pior do que a morte”. (22) Frequentemente a família pede em tais situações
a paragem do tratamento. Entre muitos outros profissionais Jennett e Dyer
defenderam que há “o direito a morrer”. (23) Uma opinião discordante é a de
Zeman: “de um ponto de vista pode-se considerar que os doentes em estado
vegetativo persistente têm uma qualidade de vida boa, desde que sejam
alimentados, limpos e cuidados, e sem preocupações.” (18) Outra visão é que se
são incapazes de apreciar qualquer coisa, não podem ter qualidade de vida, boa
ou má. (24) No entanto, muitos doentes são submetidos a programas de
reabilitação e de estimulação da vigília e mesmo assim mantém-se severamente
incapacitados. Isto levanta a questão se tais esforços se justificam.
Patrick Verspieren defende que “após um acidente que provocou o coma e, a
seguir, o início de um estado vegetativo, convém aplicar todos os cuidados e
tratamentos médicos dos quais se pode esperar a melhoria da situação do doente,
isso compreende os cuidados de estimulação da vigília; inversamente, a partir do
momento em que parece legítimo afirmar a “permanência” (ou “cronicidade”) do
estado vegetativo, a luta contra as doenças graves que podem ocorrer deixa de se
impor. Nesse momento, é logicamente aceitável renunciar aos tratamentos médicos
e “deixar morrer” a pessoa”. (15)
Jennett defende também que “a recuperação de um grau limitado de consciência
pode certamente ser pior do que a não recuperação para esse doente, apesar da
satisfação que pode trazer aos seus cuidadores”. Na sua opinião é melhor não
permitir esta situação deixando que estes doentes morram antes. (23)
Zeman está em dúvida, mas aponta o exemplo, bem documentado, da recuperação
atrasada “de um homem jovem que ficou totalmente dependente de outros para as
suas necessidades mas sorria o dia inteiro e parecia, aparentemente, prestar
atenção a actividades simples e fazer parte de um grupo” e o exemplo de outro
“jovem com danos anóxicos do cérebro que ri apropriadamente ao ver “cartoons” na
televisão e mostra prazer com o que se passa ao seu redor”. (18)
Outros autores defendem que estes doentes estão já mortos. Brierly descreveu
alguns casos “de morte neocortical” em doentes em EVP com um EEG isoeléctrico.
Defendeu a opinião que o limite entre a vida e a morte não é a paragem
irreversível da respiração e da circulação mas a perda irreversível das funções
corticais mais elevadas como a consciência. (25) Brierly escreveu o seu artigo
no tempo em que o conceito de morte cerebral era novo e ainda não aceite. Mais
tarde o conceito de “morte pessoal” foi usado para os doentes que tinham perdido
a sua personalidade. O conceito de pessoa implica ao menos a consciência e toda
a possibilidade para tomar decisões autónomas. (26) Schneiderman vai mais longe
e afirma que estes doentes se encontram num “estado medicativo persistente”,
sugerindo que se trata de uma situação pior do que a própria morte. (27) Alguns
autores apontam mesmo para a conclusão química das funções vitais restantes. E
segundo esta opinião esse tratamento não é eutanásia porque o doente já estará
morto. (28) No entanto, todas as associações médicas importantes rejeitaram esta
proposta. Internacionalmente somente o conceito de morte do tronco cerebral é
aceite, uma situação em que todas as funções do cérebro incluindo a respiração
espontânea são perdidas de maneira irreversível.
Porém, é, às vezes, tecnicamente possível manter estes doentes vivos por muitos
anos. Esta situação pode ser comparada com a situação do processo de morrer
normal, em que de início o córtex cerebral diminui a sua função e mais tarde o
tronco cerebral pára gradualmente com a última expiração comandada pelo centro
respiratório. Para os doentes em EVP este processo de morrer foi bloqueado por
um tratamento médico que foi iniciado num período em que havia alguma esperança
na sua recuperação. Quando o doente em estado vegetativo persistente for julgado
irreversível o processo de morrer deve ser desbloqueado e permitido ao doente
morrer naturalmente. (4)
A Medicina prossegue determinados objectivos que se podem sintetizar nas ideias
de restauração e manutenção da saúde e na prossecução de cuidados paliativos.
Ora, apesar de alguns desvios praticados em nome da inviolabilidade da vida
humana ou, mais prosaicamente, por temor da prossecução judicial no contexto de
uma medicina defensiva, que conduziu a situações de obstinação ou encarniçamento
terapêutico, já Hipócrates afirmava a proibição de tratamento dos doentes sem
esperança de salvação. No texto hipocrático intitulado “A Arte”, o médico é
aconselhado a “suavizar o sofrimento do doente, reduzir a violência da sua
doença e recusar tratar aqueles que são dominados pela sua doença, reconhecendo
que em tais casos a Medicina não tem poder”. (13) Por sua vez, a teologia
católica pronunciou-se no sentido de apenas se estar moralmente obrigado aos
tratamentos com meios ordinários, mas já não aos tratamentos com meios
extraordinários. Na verdade, a doutrina da santidade da vida é fundamentalmente
negativa, proibindo a morte intencional de seres humanos inocentes, mas não
obrigando o médico a esgotar, em todas as circunstâncias, os meios para
prolongar a existência. (21)
De acordo com o sistema ético defendido pela Associação Médica Americana, é
permitido parar os tratamentos desproporcionados quando a morte é iminente e o
doente se encontra em estado terminal. Um doente em EVP entretanto, é mantido
vivo com tratamento apropriado, às vezes por muitos anos. Assim pode-se
questionar se tal doente não é um doente terminal. A AMA colocou o coma
irreversível e o síndrome de EVP, mesmo quando a morte não é iminente a par com
os doentes terminais. A perda permanente da consciência é assim considerada como
um ponto irreversível no processo de morrer.
A sobrevivência destes doentes, em algum grau, é relacionada com a qualidade, a
intensidade do tratamento médico e os cuidados que recebem. Dado que muitos
doentes que entram em estado vegetativo saem dele após algumas semanas ou meses,
estes doentes devem ter um programa de reabilitação. Após um primeiro período
agudo e instável a maioria dos doentes em EVP não necessitam de suporte avançado
de vida, o cuidado técnico mais elevado. Então as complicações mais frequentes
que ameaçam a vida são as infecções pulmonares e urinárias. Raramente há
problemas técnicos sérios com a alimentação artificial.
Geralmente adapta-se o nível do tratamento à condição e ao prognóstico do doente
em EVP. Quando as possibilidades de uma recuperação a nível aceitável se
tornarem muito pequenas os tratamentos de suporte avançado de vida e os
antibióticos são suspensos, mesmo no caso de surgirem complicações ameaçando a
vida. A intervenção médica neste caso pode ser considerada fútil. “Genericamente
é fútil todo o tratamento que não pode atingir o seu objectivo; terapêuticas que
são administradas sem qualquer benefício são evidentemente fúteis e nunca devem
ser prescritas”. (29) Esta política é chamada “reserva de morrer” e é a política
normal no tratamento de doentes terminais. Sendo desta forma que morre a maioria
dos doentes em EVP.
Alguns doentes em EVP têm uma condição física boa e estável com cuidados gerais
e alimentação e assim podem ser mantidos vivos por vários anos. Os problemas
éticos levantam-se quando o tubo de alimentação tem que ser mudado após uma
complicação técnica. É esta mudança útil ou é esta complicação o momento
oportuno para terminar um tratamento adicional a mais? Muitos autores consideram
que a manutenção da nutrição e hidratação não tem outro efeito que não seja o
prolongamento do processo de morrer, sem qualquer benefício para o doente; ora
se uma terapêutica não pode trazer benefício ao doente, não deve ser aplicada.
(14)
Mais difícil ainda é a resposta à pergunta se é eticamente permitida a paragem
da nutrição artificial quando o prognóstico de um doente em EVP é estável e
julgado como irreversível, mas a sua condição física é boa. |